Malformação fetal e consequências de longo prazo das arboviroses por Zika vírus

 

As infecções são uma grande ameaça à saúde reprodutiva humana, e durante a gravidez podem estar associadas a consequências devasta­ doras para a mãe e o feto em desenvolvimento. A transmissão vertical, definida como infecção do feto pelo hospedeiro materno, é uma das principais causas de morbimortalidade na gravidez.(1) Estas infecções podem ser causadas por bactérias, vírus e parasitas e são conhecidas pela sigla TORCH (Toxoplasma gondii, outros, rubéola, citomegalovírus e herpes simplex). A categoria “Outros” vem se expandindo rapidamente à medida que se descrevem outros agentes infecciosos capazes de acarretar doença neonatal.(2)

As sequelas destas infecções incluem efeitos te­ ratogênicos, que causam anomalias congênitas, restrição de crescimento intrauterino, aborto, prematuridade, óbito fetal e neonatal e morbidade materna. Alguns defeitos podem até se manifestar após o nascimento. A transmissão vertical de patógenos através da interface ma­terno-fetal é responsável pela infecção fetal e pode interromper a organogênese, levando a estas anomalias congênitas; estão presentes em aproximadamente 3% dos nascidos vivos e a proporção atribuída à infecção está mal definida.(3)

A placenta tem robustos mecanismos de defesa para restringir a transmissão vertical. No entanto, patógenos que causam doenças congênitas contornam estas defesas e acessam o espaço intra-amniótico.(3) Na categoria “Outros“, as arboviroses vêm ganhando espaço e ocorrem quando alguns vírus são transmitidos por ar­trópodes à mulher grávida, como Zika, Dengue, Chikungunya e Febre Amarela. O primei­ ro provável sítio de replicação virai é a decídua.

O vírus da Zika (ZIKV) é da mesma família do vírus da Dengue e Febre Amarela (jlaviviridae); é transmitido pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti (e outros Aedes) e por outras vias, como contato sexual, transfusão de sangue e transmissão vertical. O ZIKV foi descri­ to na década de 1940, e em 2015-2016 causou uma epidemia de 1,3 milhão de casos suspeitos e aproximadamente 2 mil casos associados à malformação congênita, cujo epicentro foi o Brasil.(4•6) O ZIKV se espalhou por 62 países e territórios por todo o mundo. Tem manifestação clínica em 20% dos casos (febre, exantema e artralgia) e comprometimento fetal em 10%.

“:”— ——— —

As malformações observadas são microcefalia, alterações cerebelares, atrofia cerebral, ausên­cia de corpo caloso e ventriculomegalia, calci­ficações intracerebrais, hepatoesplenomegalia, calcificações intra-hepáticas, intestino hiperecogênico e alterações oftalmológicas.

A repercussão na gestação ainda pode acarretar aborto, retardo de crescimento intrauterino e óbitos fetal e perinatal.(7•8) Também foi relata­ do que a infecção no primeiro trimestre da gestação é a de maior risco para o feto. Além dos achados descritos, a síndrome congênita do ZIKV foi descrita em recém-nascidos expostos ao vírus durante a gestação, que evoluíram com ausência de microcefalia ao nascimento, porém com infecção congênita. A neuroimagem precoce após o nascimento pode identifi­car anormalidades cerebrais mesmo entre bebês com perímetro cefálico normal. Portanto, o acompanhamento pós-natal é fundamental.(9)

O ZIKV também foi detectado em sangue, saliva, urina, líquor, sêmen, leite materno, vagina e colo do útero. A persistência mais longa do ZIKV no sêmen descrita foi 370 dias. A presença no sêmen foi associada a sintomas genitourinários e à oligospermia. Na fertilização in vitro, oócitos com RNA do ZIKV foram descri­ tos.(10) Atualmente, é obrigatória a realização de sorologia para Zika até 30 dias antes da captação de óvulos e transferência embrionária em tratamentos de reprodução assistida.

Desde o surto de 2015 a 2016 na América do Sul, o ZIKV infectou quase 900 mil pacientes. Além disso, a síndrome de Guillain-Barré (GBS), uma doença neuroimune de adultos, também foi associada à infecção pelo ZIKV Atualmente, o número de pacientes infectados pelo ZIKV diminuiu. No entanto, com base em sua história natural de exemplo típico de patógeno reemergente e na falta de opções terapêuticas específicas contra a infecção pelo ZIKV, novos surtos podem ocorrer em todo o mundo, exigindo a atenção de pesquisadores e autoridades governamentais, principalmente considerando alterações climáticas que contribuem para a disseminação do principal vetor que é o Aedes aegypti.(11)

Atualmente a única prevenção contra a infecção pelo ZIKV são os repelentes contra a pica­ da do mosquito, devendo ser usados pelo casal quando a mulher está gestante e recomenda­ dos para o casal que deseja engravidar. A icaridina 20-25% (spray) tem ação prolongada, baixa toxicidade dérmica, oral e por inalação e não apresenta, aos testes realizados, efeitos te­ratogênicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda como opção de repelente na gestação e na amamentação a icaridina de­ vido a sua eficácia e segurança.(12•13)

Segundo o Centro americano de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention – CDC), os repelentes seguros para uso na gestação e amamentação são icaridina (ácido piperidinecarboxylic, hydroxyetil, metilpropilester), DEET (N,N-die­ thyl-meta-toluamide), IR3535 (N-Butyl-N-a­ cetyl-ácido aminopropionico etil éster), óleo de limão eucalipto (OLE) e Para-mentano-diol (PMD). O OLE e o PMD não podem ser uti­ lizados em crianças com menos de 3 anos. A icaridina é também conhecida como Picaridin ou KBR 3023, e seu princípio ativo é deriva­ do de um componente natural da pimenta, sendo o repelente de maior duração (até 1O horas), que pode ser utilizado em associação com filtros solares, não havendo interação química. Já outros, como o DEET, não podem ser utilizados em conjunto, pois há redução da eficácia. O ideal é que a icaridina seja aplicada diariamente na pele e no vestuário das gestantes e de seus companheiros.(14•15)

Referências

1.Boyle B, Addor MC, Arriola L et ai. Estimating global burden of disease due to congenital anomaly: an analysis of European data. Arch. Dis. Child. Fetal Neonatal. 2018;103(1):F22–8.

2.Neu N, Duchon J, Zachariah P. TORCH infections. Clin Perinatol. 2015;42(1):77-103.

3.Christina J. Megli, Carolyn B. Coyne. Infections at the maternal–fetal interface: an overview of pathogenesis and defence. Nat Rev Microbial. 2021;25:l-16.

4.Mlakar J, Korva, M, Tui N et ai. Zika virus associated with microcephaly. N Eng! J Med. 2016;374:951-8.

5.Brady OJ, Osgood-ZimmermanID, Kassebaumet NJ et ai. Toe association between Zika virus infection and microcephalyin Brazil 2015-2017:an observationalanalysisofover4 million births. PLoS Med. 2019;16(3):el002755.

6.Paixao ES, Barreto F, da Glória Teixeira M et ai. History, epídemiology, and clinicai manifestations of Zika: a systematic review. Arn J Public Health. 2016;106(4):606-12.

7.Hoen B, Schaub B, Punk A et ai. Pregnancy outcomes after ZIKV infection in French territodes in the Americas. N Eng! J Med. 2018;378:985-94.

8.Chibueze EC, Tirado V, Lopes KD et ai. Zika Virus infection in pregnancy: a systematic review of disease course and complications. Reprod health. 2017;14(1):28-4.

9.Van der Linden V, Pessoa A, Dobyns W et ai. Description of 13 infants bom during october 2015-january 2016 with congenital Zika Virus infection without microcephaly at birth – Brazil. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2016;65(47):1343-8.

10.Morelli F, Souza RP, Cruz TE et ai. Zika virus infection in the genital tract of non-pregnant females: a systematic review. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2020;62:el6.

11.Filgueiras IS, Carvalho AT, Cunha DP et ai. Toe clinicai spectrum and immunopathological mechanisms underlying ZIKV-induced neurological manifestations. PLoS Negl Trop Dis. 2021;15(8):e0009575.

12.Marinho PS, Cunha AJ, Amim J Jr, Prata-Barbosa A. A review of selected Arboviruses during pregnancy. Matem Health Neonatol Perinatol. 2017;3:17-26.

13.Organização Pan-Americana da Saúde – PAHO. Zika. Disponível em: https://www.paho.org/pt/topicos/zika. Acesso em: 05 set. 2021.

14.California Department of PublicHealth – CDPH. EPA-Registered Repellent Ingredients. Disponível em: https:// www.cdph.ca.gov/Programs/CID/DCDC/Pages/EPA-Registered-Repellent-Ingredients.aspx. Acesso em: 05 set. 2021.

15.Centers for Disease Contrai and Prevention – CDC. Chapter 3 – Environmental Hazards & Other Noninfectious Health Risks. Disponível em: https:/ /wwwnc.cdc.gov/travel/yellowbook/2020/noninfectious-health-risks/ mosquitoes-ticks-and-other-arthropods. Acesso em: 05 set. 2021.

Essa postagem é de caráter informativo e não substitui a avaliação médica. Procure um profissional especialista antes de qualquer tratamento.